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22 fevereiro, 2011

Menina de vestido azul com copo de cerveja e baton avermelhado, sapato laranja e olho virado.

Beijou, insolente, a tal discussão. Saiu à francesa, enquanto, na sala, pessoas perguntavam sobre o que se tratava tanta gritaria.

20 dezembro, 2010

Darlene

Desceu a rua balançando o corpo como de costume.
Os rostos acompanhavam seu movimento, mas não era isso que prendia sua atenção aquela tarde. Nunca soube ao certo o que fazia de si tão estranha àquela gente que insistia em estranhar. Era sua rotina, porém.
Hoje, a mente trabalhava em expediente diferente. Havia um cheiro e estava embriagada.
Subiu as escadas e nem se deu conta da gata que espera a passagem  para brincar com seus tornozelos. Quando chegou, tudo estava tão normal, tão igual, que percebeu desconcertada a presença do tempo estante e pastoso.
Cumprimentou a mãe na cozinha que, mesmo sem lhe voltar o rosto, dizia que estava bem e que a amava. Isso  porque é inerente às mães amar quem quer que seja filho seu, de ventre ou não. Às mães não há espaço para escolha de nome e nota de amor. O resto da família também estava lá e seu quarto no mesmo lugar.
Acontece que à tarde, antes de seguir o caminho, beijar as mãos e respirar o tempo pesado, houve água. E posso mesmo dizer que não era água ao certo, mas que tinha o cheiro e o toque da água chuva cachoeira que se derrama feito qualquer coisa, que não sabe das convenções de pessoas que espreitam passadas sem barulho ladeira abaixo. Acontece que o tempo é tão fluido quanto água. Tempo é água de lavagem.

(Suspira.)

Nada arde como o lábio quando o controle não toca a sombra que afaga. Nada alcança o lábio inerte. Acelera, acelera, respira e corre e sofre e deseja.

Então, as tardes são curtas o suficiente para voltarem sempre e sempre. E enquanto o tempo se cristaliza na sala, enquanto as mães amam sem porquê e os pais dormem no sofá, a menina anda todos os dias pelo relógiodo desejo porque é tempo de poder.

Esquecendo-se disso, convém, porém, observar,  que os adolescentes morrem aos pés da caixa sem ao menos cojitar sua abertura. Quando acordarem, o espaço entre o agora e depois terá deixado poeira em seus ombros e não deixará, além disso, vontade.

Ah que o tempo nos causa enjôo às vezes!

27 julho, 2010

Cotidiano

Entrar por teu quarto, arrancar-te desse mundo que tanto grita. sentar em teu colo e cantar algo ao teu ouvido, querer saber de ti mesmo que pensamento anda a rondar tua cabeça quando me olhas e não olhas mais. Abraçar-te até que te vejas obrigado a apertar meu corpo contra o teu mais que o que faço quando, assim, te tiro desse estado para só, e somente só, querer um pouco da atenção que não me entregas assim de mão beijada.

Doce luta essa travada pelo silêncio que berra entre músicas, frases mal feitas e mal pronunciadas. Cadê o teu olhar que perdi. Vou encontrar ali, naquele canto, na tua sala, em teu peito o encanto que perdi. Não sei mesmo em que momento, mas meus diários agora só se preocupam em saber que dia está em tua cabeça martelando. Já não sei onde mesmo é que esse pensamento surge, se em mim e, então, em delírio vejo em tua face, ou se em ti e, em delírio, aflora em mim.

Totalmente ligada à esse querer passageiro que, qual pássaro louco, me beija e vai embora. Atravessa minha janela, senta ao meu lado, pousa em meu ombro e pousa a minha guarda, surrura aqui e vai embora.

Saibas, entretanto, que todos os dias atravesso o espaço de respeito posto, te beijo e te deito assim em meu lado, apenas contemplo-te contidamente todos os poucos minutos que em minha manhã vem para deixa-la mais colorida que essas tardes cinzentas.

Acordo, portanto, todos os dias. Deixo o bom dia, deixas também. O dia segue, e morre e amanhece todas as vezes a ponto de irritar tamanha repetição. Contradição: tanto morre, tanto nasce. Também é assim esse desejo que só se explica pela curiosidade de entender-te tão longe e perto.

Mas saibas, sol medonho de dias de inverno que se esconde tão maledicente, entro por tua casa todos os dias e arranco-te desse silêncio tão aterrorizante, canto algo em teu ouvido e obrigo-te ao abraço ainda mais apertado. E saio.

Saio sempre como se nada, nenhuma canção fosse dita, nenhum arranhão de nada em tua cizuda armadura fosse feito, como se sequer tenha encostado em ti. Gargalhando, por isso, caminho à porta da rua e vejo que vais também cada vez mais a ermo. Cada vez mais impercebível.

Ainda, um dia, arrancarei esssas roupas que esperam pela tua presença para que sequem, tiro-as dessas chuvas que sempre vêm e as ponho assim todas bem perto de tua cara estranha e branca de tão quente.E mesmo assim, invadindo tua casa, invado tua presença nessa mesma repetição que tanto irrita até que me digas, com descência, onde meteste o encanto que tinhas por mim.

20 julho, 2010

Voyer

Te espero solenemente, como todas as noites. Para que me olhes, para falares comigo, me desejares como imagino e ires embora, também, solenemente.

E durmo com a memória de teu corpo e não sei como dormes sem o meu que, em frio, queima pela espera de que deites aqui. Doce!

E adormeço sempre agarrada a algo que sequer tem cheiro, o teu que tá tão entranhado neste quarto, não faz distinção daquele que é meu e, por isso, não há pedaço de ti em mim que traz saudade. Não há saudade.

E se te ouço, sei que desejarei e tu, então, sentirás qualquer coisa que controlas, igualmente.

Deixarás - todas as noites - teu corpo para mim e dormiremos abraçados ao pouco que sabemos um do outro. Com frio e queimando. Somos o que há de moderno, atual. Somos o que não se une, o que é independente, o que me constrói e que construímos. Oh, sociedade contemporânea, como podes esvaziar minha cama, assim, tão insolentemente?

Oh, sociedade moderna, odeio tua individualidade!

13 julho, 2010

OS REINOS, AS FILHAS E OS REIS

Todas nós deveríamos chorar a dor de perder-se assim tão depressa. Que intenção nos traz até aqui? Se ao menos descrevesse comigo um desenho lógico, talvez comprasse tua idéia.
Se os dedos não são capazes de tocar a pele, como podem desejar a alma de quem bebe a mesma fonte todas as vidas? Que sequência de erros Vos diverte?
Deitei na pedra, ao sol, minha alma para corar, apenas a branquidão do tempo, apagando a juventude de quem espera e envelhecendo-os como quem pune. Estou marcada.
Semelhante injustiça segue as outras mulheres do tempo que amamentam as criaças nos ônibus lotados da cidade. Feiras livres de nós mesmos, um brechó de nossas identidades, a costumização de nossas vestes.
Veste teu manto, ó Senhora livre, Senhora pura e sem mácula e deixa pra mim a sátira de estar vivo, a mancha de ter querido mais que isso que me envolve. Meu poder é menor que o que em mim vive, mas os mundos não se limitam a estar aqui, assim, perdidos nessa chita que só me diz que não sou.
Que pureza nos julga todos os dias? Que sargeta nos aquece todas as noites? E que faço eu com essas mãos que sequer tocam minha pele? Não os quero.
Não quero os homens que salivam em pé nos mesmos ônibus da cidade que cresce, alto. Não quero também os homens do bar que bebem coragem e fumam cigarros. Eu quero o próprio desejo de fumá-los, porque sou mais que isso. Sou e somos.
Quem é você todos os dias pela manhã? Por onde andas quando a noite vem? Estamos tão perto e continuo sem entender tuas mãos.
As mulheres de nossas noites, dos mantos dos dias, também dos mantos que doam sem perdão, não queremos Vossos líquidos sagrados, Vossa coragem forjada, tampouco, Vossas bocas coradas pelo hábito. Traz apenas tuas mãos e entenda que querer morrer é querer viver mais, mais que todos os outros.
Como podes ignorar tanta cor, cheiro e sangue?